Sindicatos defendem o uso de apenas 50% da mão de obra e o aumento de turnos para evitar aglomerações

Em meio a um crescente número de casos de Covid-19 em frigoríficos, uma das principais medidas de prevenção apontada pelas autoridades para aumentar o distanciamento na linha de produção ainda é tema de discussão no setor. Embora sindicatos e autoridades defendam a redução da mão de obra na indústria, a medida é alvo de críticas por entidades representativas de produtores de proteína animal. “Não é factível reduzir em 50% a mão de obra porque acabaria prejudicando muito o fluxo de produção. Uma das medidas que não teria problema seria aumentar os turnos, que é o pleito que fizemos”, Explica Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal.

Durante audiência pública convocada pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) no Senado para discutir as condições de trabalho em frigoríficos durante a pandemia, o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria de Alimentação e Afins (CNTA), Artur Bueno de Camargo, defendeu a redução pela metade do força de trabalho em frigoríficos. Segundo ele, a categoria sugeriu a medida para a indústria, que apresentou resistência em alguns casos. “Eles tiveram resistência sob a argumentação de que inviabilizaria a produção. A nossa resposta é simples, é preciso que os donos de frigoríficos tenham consciência de que estamos vivendo uma situação anormal”, relata o sindicalista.

Segundo o professor da faculdade de medicina veterinária e zootecnia da USP e pesquisador do Centro de Estudos Comparativos em Saúde, Sustentabilidade e Bem-Estar, Adroaldo Zanella, “reduzir temporariamente o número de pessoas por turno não é ótimo do ponto de vista econômico, mas o colapso dessas unidades é muito pior”. “Não é uma situação de mocinho e bandido, de certo ou errado, é uma situação de crise cujo resultado final pode ser desabastecimento – e o maior desestabilizador social que pode haver é a fome”, explica Zanella ao defender o diálogo entre trabalhadores e indústrias para evitar o pior no setor. “Trabalhar em conjunto ela é de fundamental importância. Esse assunto não pode ser transformado em uma queda de braço pois um colapso dessas unidades de abate geraria um efeito dominó que afetaria toda uma comunidade”, explica.

Tanto trabalhadores quanto indústria estimam que uma redução da ordem de 50% na força geraria uma queda de cerca de 30% na produção de carne, a depender das condições da operação. O volume, observa o presidente do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados de Santa Catarina (Sindicarne), levaria a impactos semelhantes ao de uma paralisação total. “No caso de Santa Catarina, se reduzir em 20% a produção, serão 40 mil aves a mais no campo todos os dias. Então a consequência é a mesma, mas em proporções diferentes”, explica Jorge de Lima. A medida faz parte da série de recomendações do Ministério Público do Trabalho para prevenção da Covid-19 em frigoríficos e tem sido incluída nos termos de ajustamento de conduta firmados com empresas como BRF, Aurora e Minuano.

“Nós entendemos que os TAC que o MPT tem feito com os frigoríficos são de fundamental importância, mas com dois mil trabalhadores por planta, em média, é impossível manter o distanciamento”, aponta Camargo ao ressaltar que, apesar das paralisações, ainda há dificuldade para promover a redução da jornada. “A espinha dorsal de tudo é a questão da redução dos trabalhadores por turno, esse é o ponto essencial que nós entendemos que precisa realmente ser implantado”, explica o presidente da CNTA que, juntamente com outras entidades representativas da categoria, pediu que a medida seja incluída no protocolo único que está sendo desenvolvido pelo Ministério da Agricultura para prevenção e controle da Covid-19 no setor frigorífico.

https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Criacao/Boi/noticia/2020/06/distanciamento-social-em-frigorificos-opoe-trabalhadores-e-industrias.html

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