A pandemia do covid-19, decretada em março/2020 pela OMS, expôs certos desafios da sociedade atual embora já viessem sendo trabalhadas:

Doenças Crônicas: Parte dos óbitos dos pacientes contaminados pelo covid-19 no mundo têm ou tiveram algum impacto indireto da obesidade, diabetes, doença pulmonar obstrutiva, câncer ou hipertensão principalmente na faixa etária sênior 50+.

Sanidade e Zootecnia: Muitas pandemias são transmitidas por animais de abate e selvagens como o pangolim, que pode ter sido o hospedeiro intermediário da covid-19. No passado tivemos, por exemplo, doenças como: vaca louca, gripe suína e gripe aviária.

Mudanças Climáticas: Uma pesquisa feita pela Universidade de Harvard mostrou que a poluição do ar nos EUA está relacionada com a maior taxa de mortalidade pela Covid-19. Centenas de vidas poderiam ter sido salvas se o ar estivesse mais limpo como está ficando agora, devido ao isolamento social. O aumento da temperatura no planeta provocado pela emissão de gases de efeito estufa tem sido objeto de estudos também sobre influencias no surgimento de pragas, plantas daninhas, descontrole de chuvas e doenças gerando impacto em gargalos agrícolas e na saúde humana.

• Supply Chain e Gerenciamento de Riscos: Cadeias de suprimentos multi-etapas (horizontal) ou insumos concentrados em um ou poucos países geraram colapsos no abastecimento e acesso para grande parte dos países incluindo o Brasil, assim como, no deslocamento interno entre cidades e munícipios.

Com adoção do isolamento social paralisou-se parte dos comércios, alguns serviços e indústrias exigindo-se novas posturas internas, adaptações de trabalho e outros meios de produção, distribuição e comunicação, projetando assim, uma grande recessão econômica mundial.

A partir deste cenário, o futuro do alimento pós covid-19 passará por uma possível transformação motivada por novos hábitos, pela aceleração tecnológica, protocolos sanitários e de saúde global, afim de, fornecer maior segurança alimentar, saúde, sustentabilidade e estabilidade às pessoas e países.

Então vamos pegar esse prognóstico e tentar imaginar o dia seguinte da alimentação usando a inovação no pós covid-19 focado nos desafios globais sem pretensões de indicar fórmulas e receitas empresariais para superar a indicada crise econômica.

A primeira pergunta que devemos iniciar é “Qual mundo nós queremos viver e não com a situação que temos qual tipo de mundo para sobrevivermos”?

Aos poucos o “sabor” não será mais o imperativo nas decisões de compras de produtos/alimentos perdendo espaço para a consciência nutricional e quantidade de emissão de gases de efeito estufa. A rastreabilidade da(s) matérias-prima(s) e modos de produção serão exigidos pelos consumidores.

O açúcar terá regulamentação como o álcool “coma com moderação” e uma “lei seca” própria. O sal feito de plantas naturais como já vemos hoje algumas opções disponíveis no mercado ganhará espaço, assim como, o sal marinho.

Produtos de plantas (plant-based) feitas em laboratórios atingindo o mesmo ou quase o nível do sabor e textura bovina, suína, continuarão crescendo em portfólio. A preferência por proteínas vegetais, nozes e castanhas se ampliará pela percepção de epidemias, sanidade, saúde e baixa emissão de gases de efeito estufa. A biodiversidade ganhará mercado visto que três quartos da comida do mundo são derivados de apenas 12 plantas e cinco espécies animais. O Brasil ganhará destaque por possuir 5 Biomas (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa) ricos em variedades de frutas, castanhas e plantas.

O próximo degrau serão as carnes sintéticas produzidas em laboratórios. Além de controle sanitário, epidemiológico, qualidade, nutricional, zero ou baixa emissão de gases de efeito estufa a pecuária extensiva poderá ser substituída em partes por robôs inteligentes liberando espaços de terras para a agricultura regenerativa e o reflorestamento.

No médio-longo prazo frutas serão cultivadas usando genéticas, ovos que não provêm de galinha (já temos versões em pó de plantas), vinhos sintéticos, carne grelhada que não foi abatida de animais, assim como, peixes que nunca viram o mar.

Consequentemente o hortifrúti se deslocará das zonas rurais (cinturões verdes) para os bairros das cidades sendo próximas dos consumidores em fazendas urbanas, containers e estufas domésticas com todos os tipos de plantas e vegetais possíveis sendo localizadas na Apple Store e Google Play. O comércio local passa a ser privilegiado. Robôs farão o serviço de colheita e higiene tirando a função do agricultor tradicional. Além do encurtamento da cadeia logística, menores custos, baixa emissão de carbono (CO2), haverá o controle do desperdício contribuindo para uma cadeia logística mais sustentável. Assim como na pecuária, os espaços rurais de hortifrúti ganharão nova função para uma agricultura regenerativa e o aumento do reflorestamento.

É possível que os defensivos agrícolas sejam revistos no quesito percepção de imagem como parte desta solução sanitária, mas tendo os defensivos biológicos no mainstream.

Consultórios Médicos funcionarão como verdadeiras cozinhas e médicos como Chefs e sanitaristas como parte da estratégia de cura e prevenção. O médico passará assumir-se como referência em sua própria saúde à sociedade.

Consumidores poderão fazer suas receitas, assim como, imprimi-las em suas impressoras 3D de alimentos em suas residências. Ela já existe por sinal.

Tão logo os restaurantes que terão o mesmo nível de responsabilidade que os médicos aumentarão o canal delivery por e-commerce, mídias sociais, pagamentos online com produções robotizadas em um mundo mais home-office e doméstico tornando-se exclusivamente digitais onde os Chefs venderão receitas para serem impressas nos lares ou feitas artesanalmente acompanhando lives, cursos online ou aulas remotas dos autores. As casas serão os novos restaurantes físicos e espaços de convivência coletiva. O Airbnb proporcionará espaços itinerantes para a gastronomia e Chefs em novos formatos de venda, custos e experiência. Estabelecimentos físicos que terão destaques serão aqueles que possuem cozinhas insubstituíveis destinados ao nicho com ofertas restritas.

A inteligência artificial se tornará enraizada em nossas vidas nos fornecendo algoritmo de previsão de sabor, memórias e gostos desde a primeira infância. Futuramente subsidiará a personalização dos nossos alimentos e pratos usando também o DNA de nossa saliva.

Varejos, vending machines, restaurantes, bares, cafés, e-commerce etc… serão capazes de informar a quantidade nutricional, calórica, rastreamento e o quanto de emissão de gases de efeito estufa o consumidor está adquirindo na compra. O CPF na Nota Fiscal ganhará mais estes novos dados que serão enviados para os governos onde eles alimentarão seus Censos/Estatísticas em um grande big data e cobrarão imposto sobre emissão de gases de efeito estufa do cidadão gerando um crédito social. Além disso, o desperdício será monitorado gerando pontuações na Carteira Alimentar dos cidadãos e na Pessoa Jurídica incidindo em multas. Hospitais e clínicas obterão estes dados somando aos seus prontuários online em nuvem. O custo da saúde se diminuirá nos países pelo maior controle.

Estes indicadores passarão a ser score nas empresas em suas ações listadas na bolsa de valores, cálculo de imposto e relatórios de sustentabilidade. As empresas de alimentos serão negócios sociais.

Conviveremos com uma polícia sanitária que garantirá a fiscalização do cumprimento dos protocolos globais de safety food. A Organização Mundial da Saúde coordenará um grande protocolo sanitário e de saúde multilateral entre os países onde países que não possuem saúde pública serão questionados por seus cidadãos à necessidade de tê-lo.

Bairros e condomínios serão geolocalizados por nível de saúde, bem-estar e emissão de carbono (CO2) impactando nos preços do mercado imobiliário.

A digitalização do mercado alimentos fará com que alguns trabalhos e profissões encolham, diminuam ou desapareça de vez, motivadas pela substituição tecnológica ou simplesmente à falta de necessidade. Em quanto tempo? Tempo são escolhas.

Se você trabalha neste setor, é hora de refletir o futuro do seu trabalho.

Enfim, parte deste exercício imaginativo é uma ficção pelo menos por enquanto.

*Maurílio Santos Jr, Empreendedor, Inovador do Setor de Alimentos e Diretor do Comitê de Jovens Empreendedores da FIESP.

Fonte: https://epocanegocios.globo.com/colunas/noticia/2020/04/inovacao-no-mercado-de-alimentos-pos-covid-19.html

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